Na Folha (Por Paulo Sérgio de Castilho) – Os dados não deixam dúvidas: 99% das ocorrências de violência no futebol envolvem torcidas organizadas, que, ao longo do tempo, se distanciaram de seu objetivo inicial e se transformaram num negócio. Um negócio tão lucrativo quanto violento.

Nos clássicos com duas torcidas, a cidade vira um palco de guerra. A torcida mandante fica inflamada arquitetando planos para emboscar a torcida visitante, que, por sua vez, acaba se armando para a defesa.

Por saberem dessas peculiaridades, geralmente as torcidas visitantes levam apenas a chamada “tropa de frente”, os mais violentos, impedindo mulheres e crianças de irem junto. O resultado é uma praça de guerra, com o esforço hercúleo da Polícia Militar para restabelecer a ordem pública. Os enormes gastos estatais daí resultantes, com segurança e atendimento à saúde, por exemplo, pesam no bolso de todos os contribuintes, amantes ou não do futebol.

Basta lembrar que no dia 3 de abril houve ao menos cinco confrontos entre torcidas organizadas ligadas ao Corinthians e ao Palmeiras, espalhando o medo, o terror e a insegurança pelas ruas da Grande São Paulo. Um cidadão civil foi morto.

A realização de clássicos com torcida única é resultado do amplo debate do grupo de autoridades que atua em conjunto no combate à violência no futebol, composto por desembargadores, promotores de Justiça e delegados de Polícia, tudo coordenado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, com a participação da
Federação Paulista de Futebol.

As medidas adotadas recentemente, entre elas jogos com torcida única, já apresentam ótimos resultados. Nas últimas partidas e rodadas do Campeonato Brasileiro, as brigas diminuíram consideravelmente, a média de público aumentou e, ainda, o governo passou a gastar menos com o aparato policial, reduzido em dois terços.

Não é razoável obrigar o Estado a mobilizar um grande aparato para escoltar torcidas organizadas, a fim de impedir que esses grupos saqueiem, danifiquem, agridam e até matem no trajeto até o estádio. Se não são capazes de se comportarem civilizadamente, não têm que ir para a praça esportiva.

Contra fatos não há argumentos. As medidas foram estudadas e discutidas por especialistas na área de segurança. Não são opiniões simplistas de especuladores na matéria.

Ainda que polêmica, a realização de jogos com torcida única é a melhor solução que se vislumbra hoje. Mais um exemplo: no dia 19 de junho, data do jogo Corinthians x Botafogo, membros da Gaviões da Fiel, ao saberem que um grupo de torcedores do time adversário havia ficado no ônibus por falta de ingressos, confrontaram a Polícia Militar e arremessaram pedras e garrafas, tudo para agredir, gratuitamente, os torcedores do Botafogo.

Infelizmente, parte da torcida não vai ao estádio para ver futebol e torcer para seu time, mas para provocar e agredir os adversários. É preciso reduzir ao máximo as possibilidades de confronto. É preciso evitar mortes.

A adoção da torcida única é uma das medidas para isso, mas não a única. Veio acompanhada de uma série de outras iniciativas, como a venda on-line de ingressos com identificação do comprador e a proibição de que os clubes distribuam mais de um ingresso por pessoa, forma de exterminar uma fonte de renda espúria que ajuda a financiar as organizadas.

Precisamos consolidar essas ações para que, num futuro próximo, possamos pensar num ambiente saudável dentro dos estádios, com um setor misto, familiar, com torcedores de verdade, do bem, não violentos.

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2 Comentarios

  1. Mas era bem provável, que com torcida única a violência seria reduzida.

  2. Eu comparo isso de torcida única com a cota para negros: uma medida preguiçosa e simplista demais que só serve para encobrir problemas maiores: ineficiência da segurança pública e péssimo sistema de ensino, respectivamente, que reinam no Brasil. Ao invés de prepararem melhor a polícia para evitar que esses bandidos pratiquem o vandalismo, é muito mais fácil e cômodo permitir a torcida única, para os rivais não se encontrarem e façam baderna. A mesma coisa acontece com as cotas, ao invés de melhorarem o ensino pata todos, é mais fácil tirar o negro da concorrência para “corrigir” as injustiças socais. Eu chamo isso de jeitinho brasileiro.

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