Por Ricardo Noblat (site da revista Veja) – Direto ao ponto: salvo se algum dos garotos, ou um terrorista infiltrado nas dependências do clube, tenha tocado fogo no alojamento onde dormia parte do futuro do Flamengo, o que aconteceu ontem no Ninho do Urubu tem um único culpado: a diretoria. Mais precisamente: as diretorias do Flamengo desde que aquelas instalações foram construídas.

Na verdade, se pode falar em instalações, mas em construção seria exagero. Juntaram vários contêineres, desses transportadas por navios e carregados de mercadorias. No espaço exíguo de cada um, claustrofóbico, montaram beliches, apinharam armários e dispuseram um aparelho de televisão. A saída era estreita, e única. Não havia extintores de incêndio, a não ser do lado de fora.

O orçamento total do Flamengo para este ano é de R$ 750 milhões. Pelo menos R$ 100 milhões foram reservados só para reforçar o elenco. Em um clube forrado com tanto dinheiro, capaz de fazer a torcida exultar com contratações milionárias, adolescentes promissores dormiam e sonhavam com glórias em um espaço que se transformou em um forno, torrando-os cruelmente vivos.

A prefeitura do Rio lacrara o Campo de Treinamento (CT) do Flamengo em outubro de 2017. Motivo: o clube havia sido multado 30 vezes por falta de alvará de funcionamento. Sequer pagou o que devia. Naquele mesmo ano, o Flamengo reabriu o que fora fechado. Na prática, mandou a prefeitura às favas. O clube nunca pediu licença para construir qualquer coisa na área atingida pelo fogo.

“A área de alojamento atingida pelo incêndio não consta do último projeto aprovado pela área de licenciamento, em 05/04/18, como edificada. No projeto protocolado, a área está descrita como um estacionamento”, segundo nota oficial distribuída pela prefeitura. “Não há registros de novo pedido de licenciamento da área para uso como dormitórios”.

De resto, desde 2015, o Ministério Público do Rio entrara na justiça com uma ação cívica pública exigindo que o clube melhorasse as condições de alojamento dos jovens jogadores que precisassem morar no Ninho do Urubú, “inferiores até mesmo àquelas ofertadas aos adolescentes em conflito com a lei que cumprem medidas socioeducativas” em unidades prisionais. Deu em nada.

“Quase 500 atletas nascidos no Brasil que já atuavam no exterior trocaram de país no ano passado, e R$ 3,2 bilhões foram movimentados”, apurou Martín Fernandes, repórter de O Globo.  “Cerca de R$ 160 milhões voltaram para os clubes onde esses jogadores foram formados. Deveria ser dinheiro suficiente para garantir que ninguém morresse queimado num alojamento”.

Para não terem que responder a perguntas incômodas, os diretores do Flamengo passaram o dia de ontem em reuniões e convocaram outras para hoje. O presidente do clube limitou-se a fazer um pronunciamento, sem direito a ser interrompido. Repetiu os lugares comuns que autoridades acuadas costumam usar quando estão diante de algo dramático que possa vir a culpá-las.

O que mudou na política pública de proteção a museus depois do grande incêndio que destruiu no Rio o Museu Nacional? Entre Mariana, há 3 anos, e Brumadinho, há 15 dias, nada mudou na política de fiscalização de barragens. Com uma folha corrida de centenas de anos de estúpida impunidade, quem pode garantir que este país jamais assistirá a algo semelhante ao que ocorreu ontem?

7 Comentarios

  1. No Brasil não necessitamos tragédias naturais como , Vulcões, Tsunames, Maremotos, Terremotos, Tufões etc…Nós fabricamos as nossas tragédias.

  2. Sim, assumiram o risco de “torrar os garotos”. Mas não vai sair barato, não. Estive calculando, ontem, por alto, só com salários estimados de 1 salário mínimo mês, mais consectários, pelo tempo de vida estimado dos garotos, o Meiguinho poderá ter que desembolsar, a título de indenização, cerca de R$ 10 milhões. Isso se os advogados não conseguirem mais de 1 salário mínimo, a título de ganhos presumidos, por mês, se vingar a tese de que viriam a ser jogadores profissionais. Fora a indenização por danos morais, a ser estimada pela Justiça.

  3. A diretoria não fará mea-culpa para a imprensa muito menos para os “juízes da internet”. Caberá exclusivamente ao Poder Judiciário julgar os possíveis responsáveis, após o término das investigações.
    Observando a conduta da mídia brasileira nas últimas horas sobre a tragédia, pude notar, lamentavelmente, no que parte dela se tornou: inquisidora, manipuladora, tendenciosa, parcialista e articuladora. Ontem mesmo, o portal UOL divulgou uma fake news sobre as licenças do CT e se retratou após um tempo. Noto agora a falida Veja, tentando usar a tática mais comum: associar a tragédia as recentes contratações, como se o Clube tivesse somente preocupado só com o dinheiro e tivesse jogado seus atletas na deserção. Um verdadeiro absurdo! Não está preocupada com o apoio aos familiares das vítimas e os sobreviventes, que é a prioridade do Clube neste primeiro momento, nem tampouco com as condições estruturais da maioria dos outros clubes, que estão em condições semelhantes ou piores as que os garotos estavam temporariamente.
    Me supreende também o fato de usarem as falácias, as mentiras de orgãos e intituições, como a desprestigiada Prefeitura – a mesma responsável pelas inúmeras quedas da ciclovia e pelas mortes nas enchentes que todo ano ocorrem na cidade – para atacar o Clube.
    A Prefeitura Municipal do Rio não tem moral, legitimidade e credibilidade para falar desse tipo de assunto perante a tudo o que ocorreu no Rio nos últimos tempos. Deveria se recolher pois, indiretamente, tem uma parcela de culpa também.

    De antemão, que Deus conforte o coração dos familiares que perderam seus entes queridos nesse momento de tanta dor, angústia e tristeza!

  4. Sei que tu és maior do que o Noblat.Não caia nessa de bater na tragédia, aproveitando para enxovalhar o Brasil, o ser brasileiro, a nossa sociedade e o nosso país. E, é claro, o Flamengo, que sangra em cada coração rubro negro. O alojamento não era impróprio. Foi uma tragédia.

  5. Não por ser flamenguista. Mas, repetindo as palavras de um tricolor fluminense, basta de bater em cima da tragédia, aproveitando-as para enxovalhar o Brasil, o ser brasileiro, a nossa sociedade e o nosso país, que tem números positivos no número de mortos em incêndios, vide gráfico anexo. E, é claro, os antiflamenguistas, que não perdem a chance de atacar o mais querido, que sangra em cada coração rubro negro a interrupção de 10 vidas promissoras.

  6. Como disse o Adílio, fabricamos nossas tragédias! O Brasil não aprende e dificilmente irá aprender, infelizmente.

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