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Jornal El Pais (Por Juan Arias) – Este novo ano será para o Brasil uma data especial porque nele terão lugar dois acontecimentos que tocam na alma das pessoas: será eleito um novo presidente da República, depois do ano político horribilis que não gostaríamos de repetir, e será o ano em que a seleção de futebol tentará a desforra, na Copa da Rússia, pela vergonha da derrota por 7 a 1 contra a Alemanha no Mineirão.

Neste ano as urnas serão um termômetro para saber até onde chega a febre de desalento dos brasileiros com a política e seus desejos de renovação. Saberemos se querem que as coisas mudem para melhor ou preferem que continuem se arrastando no desgoverno e descaramento que estamos vivendo. E, embora possa parecer estranho, o resultado da seleção na Copa da Rússia, hoje nas mãos de Tite, um treinador discreto e com pulso firme, poderia influenciar positiva ou negativamente as eleições que se apresentam como uma das mais complexas e difíceis em muitos anos.

Já sei que o futebol nem sequer no Brasil desperta hoje aquela paixão dos tempos em que este país ganhava uma Copa atrás da outra e se identificava com a bola bem jogada. Já sei que o futebol, paixão quase universal, carregada de símbolos, foi profanado por corruptos da FIFA. Mas, ainda assim, continua vivo nas veias de milhões de brasileiros. A Copa deste ano poderia influenciar as eleições presidenciais. Uma nova derrota como a de 2014 acabaria azedando ainda mais os ânimos da sociedade. Já o hexa conquistado na Rússia, pelo contrário, poderia ser um remédio que reanimasse o desejo de querer renovar também a política para recomeçar, com gente nova, um processo mais limpo e com mais vontade de mudar as coisas.

Não podemos esquecer que foi, curiosamente, a partir do desastre da última Copa, com as vaias a Dilma no Maracanã, que se agudizou a crise política que nos conduziu até o desastre de hoje.

Cada um decidirá, tão logo acabe a Copa, quem escolher para recompor o Brasil que, de país do futuro, se viu descarrilar em um presente sem rumo. Eu não voto no Brasil, mas o que o Brasil parece estar precisando é de um presidente normal. Sim, normal, não tocado pelo lixo da corrupção, com capacidade e sabedoria para levantar os ânimos de um país em depressão e de reunificar os que a degradação da política levou a se enfrentarem duramente.

Um presidente normal, que não precise de grande biografia, como a maioria dos que governam o destino dos países com a maior qualidade de vida e a maior justiça social. Quantos sabem os nomes dos presidentes dos dez países nos quais, segundo a ONU, se vive melhor e há menos pobres e analfabetos, se houver algum? Normal significa que não precisa ser um herói, nem um santo, nem um messias, nem um justiceiro. Simplesmente, uma pessoa preparada, séria e honesta, disposta a pensar mais no país do que em seus privilégios de hoje e de amanhã. Existe?

Os escritores e os poetas são aqueles que melhor sabem compreender a alma das pessoas e seus desassossegos nos momentos críticos de uma sociedade. O Brasil, pelo que conheço nos meus 20 anos de vida aqui escrevendo sobre ele, me parece um país rico e complexo internamente, uma mistura de tantas experiências sedimentadas ao longo de séculos, embora hoje profundamente decepcionado.

E essa decepção já foi plasmada pelo grande Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, quando escreveu: “Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir… A senvergonhice reina tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade”. É o que o Brasil está vivendo, onde a “senvergonhice” a que se refere Guimarães nos levou a ver maldade até onde poderia existir sinceridade.

Por sua vez, o autor de um dos livros mais enigmáticos da Bíblia, Eclesiastes, escreveu há mais de três mil anos algo que todos deveríamos recordar neste momento de transição que o Brasil está vivendo em busca de um novo ciclo de serenidade e de fraternidade.

Escreve que:

“Há um tempo para tudo sob o sol…

tempo para jogar pedras e outro para recolhê-las,

tempo para amar e tempo para odiar,

tempo para a guerra e tempo para a paz”.

Que 2018 nos prepare um clima no qual o Brasil saiba deixar para trás, como um pesadelo, o tempo de “jogar pedras”, o tempo para “odiar” e o tempo de “guerra”, para poder respirar em uma sociedade pacificada outra vez na qual prevaleçam seus verdadeiros valores que hoje parecem perdidos.

Essa alma à qual se referia no fim do ano a escritora Rosiska Darcy de Oliveira no jornal O Globo, com a famosa frase: “que todos os deuses do Brasil nos ajudem a preservar essa estranha mania de ter fé na vida”.

Na simbologia cabalística judaica, o número 18 representa a vida. Então, feliz 2018! Que seja o ano em que o Brasil ressuscite com um novo instinto de vida deixando para trás a aborrecida caravana dos resignados.

3 Comentarios

  1. saudade de um governo que pós o pais na rota de crescimento com PIB de 6,4 chegando a sétima economia com 22 milhões de empregos gerados e aumentando o numero de estudantes com nível superior.nojo desse Brasil que ostenta operação midiática que condena maior presidente de sua historia sem provas resgatando a síndrome de vira latas que havia sido extirpada de um pais que passou a integrar o Brics mas perde espaço por ter um governo sem legitimidade que tenta acabar com a aposentadoria do trabalhador.no campo civico 7 a 1 é pouco,nossa derrota é muito maior.

  2. A análise social é perfunctória (como não poderia deixar de ser, num simples artigo de jornal), mas nem por isso falsa. Agora, supor que uma vitória na Copa vai acender desejos de mudança é duvidoso. Não seria o contrário? Não é nisso que todos os governos sempre acreditaram?

  3. Não sei se existe isso de ficarmos mais ou menos motivados dependendo do que acontecer numa Copa do Mundo, e mesmo que fiquemos, o problema é que não adianta o povo querer mudanças se nenhum candidato se mostra bom o suficiente para a função. Hoje o desânimo é grande, o povo vai votar resmungando, totalmente descrente que aquilo vá ter algum efeito. E os que ainda mostram alguma “animação”, é porque foi comprado por algum candidato espertalhão. Até acho que existam aqueles que veem alguma luz no fim do túnel, velhos na maioria (quando trabalhava de mesária, achava engraçado uns senhores que iam com a “melhor roupa” votar, e pareciam levar aquilo bem a sério). Mais que um hexa, a condenação dos corruptos, seria uma injeção de ânimo muito mais potente. Mas eu não tenho dúvidas que caso consigamos triunfar na Rússia, vai ter muita gente usando isso na sua campanha eleitoral, fazendo todo tipo de associação que se possa imaginar. Doria, quando assumiu a prefeitura, disse que faria uma tabelinha com Alckmin, à la Pelé e Coutinho. Eles adoram forçar um carisma. Eu, hein? kkkkk

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