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 Na Folha de S.Paulo (depoimento a Luiz Consenso) – O jornalista Rafael Henzel, 43, locutor da rádio Oeste Capital FM, de Chapecó, foi um dos seis sobreviventes do acidente aéreo que matou 71 pessoas no último dia 29, na região de Medellín. Henzel teve sete costelas quebradas, pneumonia e lesão no pé direito. Ficou 20 dias internado, dos quais dez na UTI, e teve alta na segunda (19). Ele planeja voltar ao trabalho em 9 de janeiro, e, no dia 25, narrar o primeiro jogo oficial da Chapecoense após a tragédia -contra o Joinville, pela Primeira Liga.

Chegamos a São Paulo no domingo (27), um dia antes da nossa viagem para Medellín, para transmitir a partida da Chapecoense contra o Palmeiras, a última do clube antes da primeira decisão da Copa Sul-Americana.

Nós já sabíamos que ficaríamos em São Paulo após o jogo porque, no outro dia, viajaríamos para Medellín.

Na segunda-feira pela manhã, fiz o programa que tenho na rádio Oeste Capital FM das 7h até as 10h e, logo depois, fomos [ele e o repórter Renan Agnolin] para o aeroporto de Guarulhos. Achávamos que poderíamos despachar a bagagem prontamente, mas a empresa boliviana de linha acabou atrasando.

O voo sairia às 15h15, mas atrasou. Entramos apenas às 16h e decolamos por volta das 17h. Mesmo assim, o clima foi de descontração no saguão e na sala de embarque.

Estávamos alegres na viagem. Era o nosso momento, o momento dos jogadores, da comissão, enfim, de todos.

Estávamos nos dirigindo para a maior decisão da história da Associação Chapecoense de Futebol.

Fomos para Santa Cruz de La Sierra. Chegando lá já estava a aeronave da LaMia, a mesma que tinha levado a gente da Bolívia para Barranquilha no dia 19 de outubro [jogo das quartas de final da Copa Sul-Americana].
O avião estava adesivado com os símbolos da Chapecoense.

APAGAR DAS LUZES

A partir daí começou a nossa viagem para chegar até Medellín. A viagem foi longa e troquei quatro vezes de lugar. Fui conversando com os amigos. Os jogadores estavam na parte da frente da aeronave e a imprensa, na parte de trás. Ficamos conversando durante toda a viagem até que me posicionei na última fileira no banco do meio do lado direito.

Faltavam dez minutos para pousar. A todo momento falavam que faltavam dez minutos, mas não no microfone. O piloto não teve nenhum contato com a gente.

Neste momento, as luzes se apagaram motivada pela falta de combustível e automaticamente os motores foram desligados. A partir daí não tenho a noção exata do tempo que levou entre o desligar das luzes até a colisão no morro, que hoje chama-se Cerro Chapecoense.

RESGATE

Horas depois, acordei, ainda no local do acidente, e vi os dois colegas que estavam ao meu lado sem vida [Renan Agnolin, 27, e Djalma Araújo Neto, 35]. Eu achei em princípio que era um sonho e que iria acordar, porque estava dormindo na aeronave. Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

Eu despertei vendo algumas lanternas que vinham de baixo para cima. Estava na parte de cima do morro. A outra parte do avião havia se desprendido completamente e caído do outro lado.

Tive forças para chamar os socorristas, que não estavam por perto. Naquele momento, só estavam dois rapazes com as lanternas. Eles vieram e conseguiram me retirar.

Estava com muita sede naquele momento, mas não podiam me dar água. Não sei dizer quanto tempo demorou para me retirarem daquele lugar. Sei que o terreno era muito íngreme, não havia trilha. Havia pedras, barro e a temperatura estava muito baixa, menos de dez graus.

Consegui ser levado até uma parte plana, onde havia uma caminhonete. Fui colocado em cima dela e levado para um ponto de apoio até chegar a ambulância. Logo depois, fui levado a um hospital, onde fiquei três dias [Clínica San Juan de Dios, em la Ceja, perto de Medellín].

Minha esposa [Jussara Ersico] e um primo [Roger Valmorbida] foram para a Colômbia, mas só consegui vê-los no terceiro dia em que estava internado.

O primeiro médico que me atendeu tentou desde o início entrar em contato com a minha família. A família dele, inclusive, foi até o aeroporto recepcionar os meus familiares e levou-os até a casa deles para tranquilizá-los.

Tive sete costelas quebradas, além de problemas respiratórios que agora estão estáveis. Estou conseguindo me recuperar após ter uma pneumonia por causa do acidente. Neste momento, tenho apenas uma pequena lesão no pé direito, que já está em tratamento com antibiótico.

Fiquei dez dias na UTI e depois fui levado para a Clínica São Vicente, uma das mais renomadas da Colômbia, e ali pude me restabelecer.

Quinze dias depois, voltei para o Brasil em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira)juntamente com o Alan Ruschel [outro sobrevivente].

FUTURO

O que posso dizer é que lá ocorreu um milagre. Setenta e uma pessoas perderam a vida, apenas seis pessoas sobreviveram. No meu caso posso dizer que houve um milagre, já que o meu banco ficou preso entre duas árvores, caso contrário eu seria lançado mais à frente e sabe-se lá o que poderia acontecer.

Ainda não parei para pensar o que vai acontecer, qual é a minha missão.

Eu só sei que para a comunidade chapecoense, que tem 210 mil habitantes, é fundamental a gente poder voltar a trabalhar, poder fazer o nosso jornalismo que é feito na Oeste Capital FM.

Quero voltar a trabalhar no próximo dia 9 de janeiro. Quero estar junto com a comunidade para superar todos esses obstáculos, superar esse luto que se estabeleceu.

No próximo dia 25 [janeiro], vou narrar o primeiro jogo da Chapecoense no ano e seguir com a vida.

Vamos buscar entender por que ficamos. Buscar essa mensagem de solidariedade, do exemplo que Colômbia e Brasil deram.

A gente vê tanta violência, brigas, mortes por motivos fúteis. A gente vê também tanta gente desistindo de tratamentos até menores do que o nosso. Não queremos servir de exemplos para ninguém, mas mostrar que é possível, com fé, acreditar.

A vida vai passando, vão ficando recordações e de repente a vida pode parar. Temos que viver com mais amor, viver mais com a família, apesar de que temos que trabalhar. Principalmente, radiar solidariedade, radiar o amor.

Deus foi o grande responsável pela nossa vida, pela vida dos nossos amigos que ficaram. Temos que levar essa mensagem de fé. Quero que 2017 seja um ano maravilhoso para todo mundo.

Não tive medo de viajar de avião. Sei que não foi um problema mecânico e, sim, humano e, por isso, não terei dificuldade nenhuma de acompanhar a Associação Chapecoense de Futebol.

O maior presente que Deus pode dar a mim e para a minha família é a minha vida.

 

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