Na Folha (Por Ruy Castro) – Fechado, sem dono e saqueado, o Maracanã se desmancha às nossas vistas. Gramado, túneis, vestiários, salas, vidros, esquadrias, tudo destruído. Sumiram fiações, computadores, extintores, mangueiras, milhares de cadeiras e, para completar, o busto de Mário Filho —o jornalista cuja campanha foi decisiva para a existência do Maracanã e que, desde sua morte em 1966, honrava-o com seu nome.

Talvez haja aí um componente simbólico: que bom que nem em busto Mario Filho esteja lá para ver o que fizeram com seu estádio. E, assim como ele, tantos outros que escreveram tão bem sobre futebol: seu irmão Nelson Rodrigues, João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Ney Bianchi, Achilles Chirol, Sergio Porto. Todos, em algum momento, cronistas do Maracanã. Nenhum deles, hoje, entre nós.

Mas há um jornalista ainda vivo e que teria ainda mais motivos para sofrer com o estupro a que submeteram o estádio: Sérgio Cabral, historiador do Carnaval e da música brasileira e vascaíno histórico. A partir de 1950, nos degraus do Maracanã, ele viu Ademir, Ipojucan, Pinga, Vavá, Roberto, Romário e Edmundo levarem o Vasco a muitas conquistas.

Às vésperas dos 80 anos, dos quais abençoado há três por uma forma irreversível de demência senil, ele parece não saber muito bem das acusações que pesam sobre seu filho e homônimo, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral.

Em sete anos de Sérgio filho à frente do Estado (2007-14), o Maracanã foi derrubado e reconstruído tantas vezes em nome da Copa, do Pan e da Olimpíada que perdemos a conta. Conta esta que a Odebrecht sempre teve de manter em dia, para pagar as supercomissões que, segundo as delações, ele levava. O fato é que, em cada metro de cimento do Maraca que Sérgio filho mandou quebrar, uma parte da memória de Sérgio pai também se esfacelou.

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2 Comentarios

  1. Triste demais, mas bom demais a lapada que Ruy dá no pé da orelha desse esterco humano que ousou, como bem frisou o autor, estuprar o muito provavelmente maior símbolo nacional, que melhor representava e comportava a essência cultural brasileira. Atitude criminosa, ignominiosa, profana, execrável, inqualificável. Que apodreça na cadeia e morra de remorsos pelo mal que causou, senão ao Brasil, ao próprio pai. Ingrato!

    João Sassi – Borogodó Futebol Clube

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