Por Miguel Jabour (*) – Num evento social, o que você costuma responder quando alguém pergunta: você lembra de mim? Uma das coisas mais terríveis que podem acontecer é não lembrar o nome de uma pessoa que o cumprimenta. Se prontamente não der nenhuma pista de onde o conhece, a estratégia é tentar ganhar tempo, esticando a conversa, para ver se a memória funciona. A pior situação é quando vem na lembrança apenas o apelido que a criatura não gosta de ser chamada. Se ela for do tipo torturadora, pede logo arrego e diz que a memória anda falhando, pois ela não vai jogar uma boia para salvá-lo.

A certidão de nascimento é o primeiro documento requerido quando se vem ao mundo e qualquer erro pode causar transtornos para toda a vida. Contam que um cidadão foi a uma repartição pública e o atendente perguntou o seu nome. Ele respondeu: Papaulo. Você é gago, questionou o serventuário? Não, mas meu pai era e o escrivão um filho da mãe.

Outro dia, um amigo disse que estava orgulhoso com o nascimento do seu neto e o nome escolhido foi Ian. Como o irmão dele chama-se Ivan, cumprimentei-o, dizendo que o tio é uma pessoa muito querida e que deve ter ficado feliz com a homenagem. Ele contrapôs dizendo que eu havia compreendido mal o nome do rebento. Desculpei-me, mas já pensou se o pai estiver resfriado e na hora de registrar a criança falar Ian e o escrevente do cartório entender Ivan?

E por lembrar disso, um fato interessante se deu quando o meu bisavô paterno recebeu a incumbência de registrar o meu pai com um determinado nome. No caminho ele resolveu se auto homenagear colocando no neto o próprio nome. Quando voltou para casa, entregou o documento e contou o que havia feito na maior cara de pau. Como naquela época o sistema era patriarcal e as matrículas de nomes eram feitos de forma manuscrita, sem que pudessem ser admitidas rasuras, nem houve a hipótese de arrependimento.

Tem pais que colocam nomes complicadíssimos em seus filhos, com ipsilone ou letras duplas. Estes casos sempre provocam um enorme desconforto, como aconteceu em um clube social de Belo Horizonte. De tanto assistir as brigas para saber quem chegou primeiro, um diretor de peladas pediu que os associados dessem o nome a um encarregado a fim de que ele colocasse no quadro negro a organização dos times, por ordem de chegada. Ocorre que um dos jogadores chamava Whashington e o funcionário teve dificuldade para fazer a sua inscrição na lousa. Aí ele parou, coçou a cabeça e perguntou: o senhor não tem um apelido?

Então, siga o dito popular: mate o homem, mas não troque o nome.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog. (artigo publicado originalmente em 7/set/19).

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