Por Miguel Jabour  (*) – Existe, desde a década de 1970, em Brasília, um grupo chamado Clube do Bolinha. Para os mais novos, Bolinha era um personagem de revista em quadrinhos que tinha uma turma que as meninas não entravam. A sede do grupo similar ao da revista era em Brasília, na Quadra 105 da Asa Sul aonde até hoje o grupo se reúne. A turma era formada por adolescentes entre 16 e 17 anos e tinha de tudo: branco, negro, amarelo, baiano, carioca, goiano, paulista, brasileiro, japonês, árabe, judeu, católico, protestante, tudo misturado. Não havia líder ou chefe e ninguém lutava coisa nenhuma, nem para atacar, nem para defender. Era um grupo de camaradas, não era uma gangue.  Apesar dos apelidos que zombavam de algumas características físicas mais evidentes, avareza ou sotaque, a palavra bullying não existia no dicionário. O único malfeito, e, à época, malfeito era malfeito mesmo, era jogar futebol na grama, proibido à época, e fugir do “graminha”, um fiscal do Departamento de Parques e Jardins que tinha o uniforme todo verde. O pecado venial era pegar emprestado o carro do pai, esquecendo de avisá-lo, e ir com a turma a um clube para jogar bola. As meninas, enciumadas, criaram o Clube da Luluzinha. Às sextas ou sábados, os Clubes do Bola e da Lulu reuniam-se para fazer festas, sempre na maior harmonia e alegria.

Lembro que nesta mesma época, quando o Maracanã estava em silêncio, a charanga do flamengo, de repente, tocava a marchinha “Mulata bossa nova”, o estádio tremia. A banda do Leme quando entoava a música “Índio quer apito”, era o sinal que desfile ia começar. No baile do Clube Monte Líbano, quando a orquestra atacava com “Olha a cabeleira do Zezé” todos pulavam. O Pelé era chamado carinhosamente por seus companheiros de Negão, o Zacaria fazia todo mundo rir com seus trejeitos efeminados, o Jô Soares era protagonista de um programa que zombava do Gordo e nenhum nordestino ficava bravo com as gaiatices do Renato Aragão. O Chacrinha jogava bacalhau na plateia e distribuía o troféu abacaxi para os calouros e ninguém ficava ofendido. Muito pelo contrário, ambos eram levados para casa para exibir para parentes e amigos. Os carecas cantavam com orgulho a música “É dos carecas que elas gostam mais”. Hoje qualquer brincadeira dessas pode acabar na cadeia.

Naquele tempo, ainda respeitavam os professores e não tinham, nem em sonho, massacres em escolas ou igrejas, no Brasil. Tudo mudou muito de lá para cá. O Mundo era menos tenso e mais divertido.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor em planejamento comercial. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

4 Comentarios

  1. Muito bom.estou acompanhando e sem ser saudosista me enquadro nestas lembrancas de infancia saudaveis sem odio ou ideologias apenas o querendo viver avida e ser feliz.ia para o colegio estudar mas principalmente ver os amigos.parabens

  2. Eu fui descobrir o que era bullying, acho que na 7° série, quando o professor de História resolveu fazer um trabalho com nossa turma a respeito. Nunca tinha ouvido essa palavra e aparentemente boa parte da escola também não. Fizemos cartazes perguntando o que era, e todos vinham até nós com curiosidade. Isso foi em 2005. Acredito que sempre existiu nas escolas e até noutros ambientes, só que não era tão falado, discutido, não causava tanta preocupação. Não acho que esses, ou a maioria, dos ataques às escolas que vemos esteja relacionado ao bullying. Como falei anteriormente, há uma espetacularização desses atos e que, acredito, seduzem os jovens. O fato é, que todo julgamento, desprezo, humilhação que as crianças/adolescentes sofrem por sua personalidade/aparência física, hoje em dia, está potencializado pelas redes sociais, coisa que não existia antigamente, e portanto, torna a coisa ainda mais séria. Os educadores precisam estar atentos a esse problema. Não acho que seja bobeira e tão simples como algumas pessoas costumam colocar. A escola pode ser um ambeinte bastante hostil e as chances de se formar pessoas complexadas e inseguras por não darem o amparo necessário nessa fase da vida é muito grande. Só quem pode dimensionar o quão pesadas são as palavras, se são ofensas ou piadas, é a vítima.

  3. Eu no alto dos meus 26 anos, a vida começa aos 40 rs… vivi essa época maravilhosa, a “democracia”pós 84 fez do brasikeiro de bem vom a vida um cidadão sisudo, sempre com o espírito armado, triste e desorientado, talvez até mal amado desde criança.O cidadão de hoje tem muito mais acesso a bens materias e muito pouco acesso a bens espirituais.

  4. Os tempos sempre sinalizam mudanças. Embora haja aqueles que dizem que tudo que muda, muda apenas nas aparências, acho que a evolução humana (por evolução grafo uma palavra amorfa, aqui empregada no sentido de caminhada, não de melhoria, necessariamente) segue um curso que nunca seguiu antes, como as águas de um rio, que passam pela mesma curva desse mesmo rio, jamais serão as mesmas…

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