Por Miguel Jabour (*) – O escândalo do mensalão estourou em junho de 2005, quando o deputado federal Roberto Jefferson declarou ao jornal Folha de São Paulo que o PT pagava regularmente vários parlamentares para votarem a favor do governo. Disse também que os recursos vinham das empresas estatais, canalizados por intermédio da agência de publicidade de propriedade de Marcos Valério.

À época eu trabalhava no departamento comercial do Correio Braziliense e mantinha um bom relacionamento com a maioria dos executivos das agências, especialmente com essa desenvolvendo grandes projetos na área de entretenimento. Uma das atribuições da minha função era fazer visitas de cortesia aos publicitários nas datas dos seus aniversários e entregar-lhes, em nome do jornal, um brinde. Acontece que justamente naquele mês a diretora geral da agência acusada desses desvios fazia aniversário e o momento não era apropriado para comemorações. Até pensei em adiar a entrega do champanhe Magnum (aquelas de pódio da fórmula 1) e das trufas de chocolate, mas conclui que a profissional não merecia tamanha descortesia, pois não tinha culpa do que estava acontecendo. Diante disso, tomei coragem e fui entregar o presente assim mesmo. Ao entrar no carro da empresa, o motorista, já sabendo o meu destino, olhou para a enorme caixa que eu levava e, com ar de deboche, perguntou: vai sair o bônus esse ano novamente, Miguel? Com certeza ele estava achando que o conteúdo do box que eu portava era tudo, menos champanhe e chocolate. Este comentário deu uma ideia: ao chegar ao hall, apresentei-me à recepcionista e vi que bem em frente ao balcão havia uma câmera de filmagem. Sem perder tempo, tirei a tampa da embalagem, mostrei o garrafão da bebida e ofereci uma trufa à atendente com o intuito de documentar o conteúdo que eu portava. Subi, conversamos um pouco sobre o momento difícil que ela estava atravessando e entreguei o brinde. Ela ficou extremamente agradecida e falou que até aquele momento somente eu havia lembrado do seu natalício. Recordou que no ano anterior havia sido homenageada por várias empresas, inclusive com o prêmio de publicitária do ano, e que a sua sala ficou repleta de presentes. Naquela hora eu vi o valor de prestigiar quem está sendo desprezado e a importância de amparar um aliado na descida.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog. 

1 Comentário

  1. Jamais deveremos esquecer, ignorar ou desprezar os aliados, amigos ou companheiros, principalmente nos momentos difíceis. Eles sempre contarão com nosso apoio, carinho e benevolência

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