Por Miguel Jabour (*) – A Maratona do Rio chegou a ser considerada um dos três mais importantes eventos da cidade, comparado ao desfile das escolas de samba e ao Réveillon na praia de Copacabana. A prova tinha como praxe contratar renomados corredores nacionais e internacionais, todos recebendo vultosos cachês, apenas para participarem da competição, independentemente de completarem a prova. Além disso, eles disputavam uma excelente premiação em moeda americana. O Hotel oficial era nada menos que o glamoroso Copacabana Palace e todos os convidados tinham direito a muitas mordomias oferecidas pelo Jornal do Brasil, promotor da corrida. Na 7a. edição, realizada em junho de 1986, aconteceu um fato inédito: a largada foi dada na Ponte Rio-Niterói, à semelhança da Maratona de New York, que é na imponente Ponte Verrazano, em Long Island. Mas não foi fácil chegar a esse sonho. O engenheiro responsável pela manutenção da ponte não queria autorizar a sua utilização e colocou mil entraves para não emprestar para os corredores, inclusive dizendo que ela poderia ruir. Foi necessário a contratação de um estudo técnico que concluiu que se fosse realizada uma marcha a estrutura da ponte poderia sofrer algum dano, pois as passadas seriam ritmadas, mas no caso de uma corrida, com passadas desregulares, não haveria problema.

A minha missão era acompanhar os atletas de elite num luxuoso ônibus fretado exclusivamente para levá-los do Copa até a praça do pedágio, em Niterói. Como eu ia correr e havia lugar no veículo, convidei o meu colega de treinamento Paulo Mostardeiro para ir junto. Lá estavam: os americanos, Ron Tabb, vencedor da edição anterior, os favoritos Paul Cummins e Doug Cútis, o australiano Laurie Whitty, o campeão de 83, o tanzaniano Guidamis Sharanga, além dos brasileiros Palmireno Benjamim, Eloy Schleder eJoão da Mata. Na parte feminina estavam: a favorita Patty Catalano, vencedora do ano anterior, e Elizabeth McElhinny.

Logo no embarque o Laurie Whitty implicou com o meu carona, e, olhando-o com desdém, perguntou: o que você está fazendo aqui? Qual é o seu melhor tempo? O Paulinho, que tinha porte físico de jogador de rugby, ficou irritado e respondeu: o meu tempo não importa a você. Vou chegar na sua frente. Desejou-lhe boa sorte e disse que o encontraria na chegada. Ao presenciar a cena, levei meu amigo para o fundo do ônibus e disse que estava arrependido de tê-lo convidado. Disse também que ali realmente era lugar de atletas de ponta e que ele deveria estar na barca como os demais participantes. Ele retrucou: turco, esse cara me humilhou. Deixei-o resmungando e fui conversar com os demais atletas. Largamos, acompanhados de aproximadamente 7.000 corredores, diante de um deslumbrante cenário, pois a Maratona do Rio era mesmo linda de correr como dizia o slogan. O calor infernal e alta umidade prejudicaram o desempenho dos favoritos. O Tabb, parou em frente ao Copacabana Palace e foi direto para o quarto. O Cummins e Sharranga fizeram tempos decepcionantes e o único gringo que teve uma honrosa classificação foi Doug, com uma terceira colocação. O vencedor foi o brasileiro Eloi Schleder, seguido do Palmireno. No lado feminino a vencedora foi a Liz McElhinny e brasileira Eliane Reinert foi a segunda colocada. O Laurie Whitty teve uma baita diarreia durante o percurso e parou no km 29. O seu uniforme amarelo, ficou marrom. O Paulinho, aos trancos e barrancos, completou a prova e ao ver o australiano na chegada, gritou, como se fosse vencedor de um duelo particular entre os dois: eu não disse? Ganhei de você! Laurie, que não havia dado a menor importância ao pretensioso desafio, entrou no ônibus para trocar de roupa balançando a cabeça, falando: crazy, crazy.

Lembrei da fábula “a lebre e o cágado” ao rememorar este episódio. Nela, La Fontaine ensina que quem humilha as pessoas ou desdenha dos mais fracos é castigado com a derrota.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

1 Comentário

  1. Gostei!!! Esse o o nosso amigo Mostasdeiro, militar como o pai(guerreiro do Bem), alegre, solto em seus comentários!

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