Por Miguel Jabour (*) – Em 21 de abril de 2007, depois de sete anos de interrupção, a Maratona de Brasília voltou a fazer parte do calendário de eventos da cidade. Durante esse hiato não houve nenhuma competição de longa distância na Capital e os corredores brasilienses não estavam preparados para correr os 42.195 metros individualmente. A opção foi fazer uma Maratona de Revezamento, onde vários atletas poderiam completar esta distância formando equipes com 2, 4 ou 8 corredores, cada um fazendo 5, 10 ou 21 quilômetros. Inscreveram-se 4.000 atletas disputando uma premiação de R$ 150 mil reais, até então, a maior oferecida por uma corrida de rua na América Latina. A largada estava marcada para às 8 horas e pela tradição o governador do Distrito Federal daria a partida. Como era o dia do aniversário da cidade, José Roberto Arruda, tinha que estar em vários lugares ao mesmo tempo e atrasou-se. No ritual da largada, sempre é tocada uma gravação do hino nacional e para ganhar tempo até a chegada do Governador, pedi para o operador do som colocar a versão original com quase 4 minutos de duração. Pelo rádio, falei com chefe do cerimonial e ele informou que a autoridade já estava à caminho. Dava para ver que os atletas posicionados nas primeira fila estavam empurrando a turma o cordão de isolamento feito pelos staffs, forçando o início da competição. Já nos acordes finais do hino, o diretor da prova, o professor Francisco Xavier, fez o sinal de degola com uma das mãos, senha combinada entre nós para o acionamento da buzina. Eu tinha que rapidamente tomar uma decisão e pensei até na hipótese de dar a largada sem a presença do Governador Arruda, o que seria um gesto de ingratidão pois ele foi fundamental para o retorno da Maratona. Neste momento ouvi o barulho das sirenes e vi os batedores abrindo caminho para a comitiva, rumo ao estacionamento que ficava ao lado do palanque dos convidados. Foi aí que surgiu uma ideia: mandei tocar novamente o hino nacional. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, os atletas mantiveram-se parados e continuaram a cantar. Foi tempo exato para o Governador subir no praticável destinado a largada, acenar para o público e tocar a buzina dando a largada. Tenho certeza que poucos notaram a manobra, inclusive o próprio Arruda. No dia seguinte, quando olhei aquela bonita foto na capa do jornal, achei que valeu a pena improvisar. As situações imprevisíveis podem acontecer e o líder não pode omitir-se, tem que decidir naquele exato instante, sem consultar ninguém, muito menos delegar. Quando a saída para uma situação difícil não está nos manuais, entra em campo a presença de espírito que é a soma da criatividade com a experiência.

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog. 

1 Comentário

  1. Você sempre competente, criativo e ágil nas soluções. Eu por várias vezes fui testemunha disso.

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