Por Miguel Jabour (*) – Passei a maior parte da minha infância morando no Leme, bairro que fica no início de Copacabana, no Rio de Janeiro. Tive uma criação muito rígida em que não era permitido receber qualquer coisa de estranhos ou dar conversa para desconhecidos. Como eu fui hiperativo na minha pré-adolescência, só saia de casa vigiado pela D. Maria, uma espécie de governanta, que, por ordens superiores, ficava grudada em mim como se fosse uma tornozeleira eletrônica. Mas, numa de suas folgas eu saí com os meus amigos para jogar futebol na calçada da rua Gustavo Sampaio, uma rua que ficava no quarteirão do meu prédio. Como eu nunca fui bom de bola, chutei mal e acertei em cheio o letreiro de neon da boate Sarau, que pertencia ao compositor Ataulfo Alves. Eu e meus amigos fugimos, mas como eu era uma figura fácil na região, o gerente foi direto à minha casa cobrar o prejuízo. O acidente poderia ter acontecido em qualquer dia da semana, menos num sábado, quando o meu pai ficava em casa. Eu fiquei escondido no corredor, mas vi, pela fresta da cortina que dava para a sala, o monte de zeros que ele colocava no cheque. Eu tinha certeza que cada número daqueles corresponderia a quantidade de cascudos que eu levaria. Depois que o cobrador saiu, entreguei-me para o acerto de contas, que, logicamente, houve. Quando tudo já estava mais calmo, minha mãe chegou das compras e recebeu o relatório. Para não perder a viagem, aplicou-me uma sequência de beliscões, castigo que era a sua especialidade. O sofrimento maior foi imaginar a cara do meu irmão, que, em algum canto da casa, estaria rindo da minha desgraça. Se já estava difícil escapar da D. Maria, depois do infortúnio a fiscalização aumentou. Contudo, ao contrário das recomendações de meus pais, ela dava papo para qualquer um no meio da rua. Como ela era fã do cantor Agnaldo Timóteo, que morava em frente ao nosso prédio, toda vez que ela o avistava da janela, descia comigo, pois eu não podia ficar sozinho. Nestas ocasiões o almoço sempre atrasava, pois ela ficava de papo com ele por vários minutos e eu tinha que assistir, educadamente, aquela conversa entediante. Como ele tinha fama de valentão e estava sempre acompanhado do seu segurança, o Cromado, eu a puxava pela mão para voltarmos para casa, com medo de que o capanga sacasse um dos seus enormes revólveres niquelados (justificativa da sua alcunha) que ele gostava de ostentar.

No meu prédio também moravam dois artistas famosos: um era o músico Chiquinho do Acordeon, maestro do programa do Chacrinha, estabelecido no 3º. andar. Ele tinha cara de estar sempre no mundo da lua, mas quando encontrávamos mostrava-se atencioso comigo. O outro, era a modelo Marina Montini, musa do Di Cavalcanti e que foi várias vezes foi capa da revista Playboy. Rezava para encontrá-la no elevador, mas como ela morava no 2o. andar, não dava nem tempo de perguntar as horas, para que, pelo menos, ela olhasse para baixo para me ver.

Outro vizinho ilustre, era o delegado Neils Kaufman, o Diabo Louro, um dos 12 homens de ouro, que, entre os seus casos de destaque, elucidou o assassinato do jornalista Alexandre Von Baungartem. Nessa época, ele aparecia muito na televisão, pois perseguia bandidos perigosíssimos. Era um policial muito respeitado e quando cruzávamos ele me cumprimentava. Nunca puxei conversa com ele, pois não sabia qual seria o tratamento adequado. Talvez se o chamasse de Dr. Diabo Louro ele pudesse ficar chateado.

Outro morador famoso do Leme era o lutador de box Fernando Barreto. Foi o ídolo no pedaço. Ele conseguiu ser o único brasileiro a vencer no Madison Square Garden, em Nova Iorque.  Quando eu tinha uns 10 anos, ele foi nocauteado pelo pugilista Jorge Fernandez, num ringue armado no auditório da TV Excelsior, em São Paulo. Após o gringo ter acertado dois socos no brasileiro, Barreto caiu fora do ringue e bateu com a cabeça numa quina. Formou-se um coagulo no seu cérebro, ele foi operado, mas, logo depois teve um AVC e ficou com um lado do corpo paralisado. Apesar de ser muito amigo do seu filho, Fernandinho, eu tinha medo de aproximar-me dele, pois não entendia nada do que ele falava e eu ficava com vergonha de pedir para ele repetir, dado o esforço que ele fazia para se comunicar.

Nesta mesma época, aos domingos, eu era obrigado a acompanhar os meus pais nas visitas aos nossos tios que moravam numa grande casa no posto 6, do outro lado da praia de Copacabana. Como o casarão ficava bem em frente à TV Rio, canal 13, o comediante Manoel da Nóbrega, após gravar o seu programa – A Praça da Alegria – atravessava a rua e ia jogar gamão com o meu pai e o meu tio. Eu o achava muito metido, pois ele nunca deu papo para mim, mas, como era um artista, a fisionomia dele gravada ficou na minha memória. Sem ter com quem brincar, aquele programa só servia para eu ficar bolando o que iria aprontar no dia seguinte no colégio.

Passadas várias décadas, só posso lamentar o tempo perdido e dizer: Ah, se eu soubesse!

Ah, se eu soubesse naquela época que o dono da boate era o compositor Ataulfo, eu diria para ele que gostava muito da sua música – atire a primeira pedra- e pediria para ele aliviar meu pai daquela conta, pois eu só havia atirado uma primeira bolada no seu letreiro. Como ele era conhecido pela generosidade, arrisco a dizer que ele aliviaria.

Ah, se eu soubesse naquela época quem era o Diabo Louro perguntaria como ele e a sua turma da Escuderie Le Cocq pegaram o bandido Cara de Cavalo, temido no Brasil todo, e o executaram com mais de 50 tiros. Aposto que ele responderia com o maior prazer.

Ah, se eu soubesse naquela época que eu iria gostar tanto de música, pediria para o músico Chiquinho do Acordeon desembainhar a sua sanfona, e, ali mesmo no hall, tocar Conversa Mole, um chorinho gravado por ele e pelo Mestre Sivuca num bolachão que ouço até hoje. Por mais atrasado que ele estivesse para um compromisso, duvido que ele negasse.

Ah, se eu soubesse naquela época que aquele homem de andar trôpego e voz embaralhada era o bravo pugilista Fernando Barreto, Campeão Sul Americano que conquistou um título em cima de um argentino em pleno estádio Luna Park, em Buenos Aires, eu ficaria horas conversando com ele, mesmo sem entender tudo que ele falasse.

Ah, se eu soubesse naquela época, que aquele sujeito gordinho e careca era o Manoel da Nóbrega, o criador de famosos personagens humorísticos que perduram até hoje no programa A praça é nossa, agora sob o comando do seu filho, Carlos Alberto da Nóbrega, eu ficaria colado ao tabuleiro de gamão, escutando o que ele, o meu pai e o meu tio tanto riam.

Ué, e o Agnaldo Timóteo e a Marina Montini? Pensando bem, deixa isso pra lá. Pato novo não mergulha fundo.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

4 Comentarios

  1. É incrível como a criação era diferente, naqueles tempos. O Brasil era outro, e, arrisco dizer, mais humano. Apesar dos petelecos, cintadas e de ter que ajoelhar no milho, de vez em quando, rsrs…

  2. Fez eu voltar no tempo, quando jogando taco , mandava a bolinha direto na vidraça, janela, da casa da Dona Ernestina, esposa do Sr Domingos Potrugueses que não brigava com nós, sabia que iríamos no vidraceiro e mandava trocar os vidros, nós trabalhávamos com 9 a 10 anos em vendas de pipas, doces ou armarinhos na feira livre, para ajudar em casa e guardavamos alguns trocados e fazíamos a famosa vaquinha.Meus pais nem poderia saber, caso contrário , levava bons cascudos, minha mãe filha de espanhóis e meu pai filho de italiano, educação rígida, não podia pisar na bola que o coro comia, do meu pai era mais respeito que medo, ele era de falar pouco, porém o necessário para enquadrar qualquer um com suas atitudes.

    • Adílio, uma vez você disse que jogou na várzea do Areião, em São Paulo, onde hoje é o Shopping Eldorado. Você morava na Região? Eu fui uma vez ver jogos lá e me lembro de que havia diversos campos de terra…

  3. Miguel, sensacional! Como a vida real é extraordinária e comovente! Linda, essa história!!

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