Por Miguel Jabour (*) – Assim que o César Maia tomou posse na Prefeitura do Rio, em janeiro de 1993, convidou o publicitário Clementino Fraga Neto para ser o Secretário Municipal de Esportes e, por indicação dele, fui nomeado diretor de marketing da sua pasta. A minha primeira atribuição foi arrumar um troféu para ele entregar ao comandante do barco vencedor da tradicional Regata Cape to Rio, com largada na Cidade do Cabo, na África do Sul e chegada no Rio. Foi o retorno da competição ao Iate Clube do Rio de Janeiro, pois em 1976, a cidade do Rio deixou de receber a prova em oposição ao apartheid.

Acontece que a Secretaria não tinha verba orçamentária nem para comprar um alfinete, pois a autoridade antecessora havia raspado o cofre. Mesmo que houvesse dinheiro, por dever legal, teria que ser feita uma licitação e não haveria tempo para atender os trâmites burocráticos. Então, lembrei-me de um amigo dos tempos que frequentei o Clube Monte Líbano, Mauricio Nacif, que era dono de uma loja de material esportivo na rua da Alfândega, chamada Nacif Esportes. Fui até lá e, na maior cara de pau, pedi para o dono ceder um dos seus majestosos troféus, garantindo que após estabelecer-me na nova função a entidade pagaria pelo troféu. Na base da confiança, ele aceitou. Escolhi o maior de todos e pedi para ele gravar uma placa indicando que a peça era um oferecimento da Secretaria Municipal de Esportes do Rio de Janeiro.

No dia da cerimônia a taça ficou exposta na mesa central do evento e destoava das demais tamanha a feiura. Ela ficou entre um Globo feito em puríssimo cristal com o percurso da regata e outra que reproduzia uma embarcação cunhada em bronze, ambas verdadeiras obras de arte. Quando o elegante Secretário Fraga Neto viu o reluzente troféu ao estilo Jules Rimet, disse: esse troféu é de futebol e nem em campeonato de várzea ficaria bem. Muito sem graça ele entregou a trambolho ao riquíssimo industrial Hasso Plattner, comandante do barco Morning Glory. Eu, morrendo de vergonha, fiquei de longe acompanhando a expressão do alemão ao carregar aquela coisa horrorosa. O coquetel estava rolando no suntuoso salão quando o magnata, discretamente, foi embora deixando o troféu num canto. Mais que depressa peguei-o e no dia seguinte devolvi para o meu amigo dizendo: não esquecerei a sua gentileza. Agora, é só tirar a plaquinha e colocar à venda novamente. Ele ficou aliviado, pois o material voltou intacto acabando com a incerteza quanto ao pagamento.

Com isso, aprendi a prestar bem atenção ao pedido e para quem ele é destinado. No caso da Cape to Rio, não era qualquer troféu que serviria para aquela ocasião. Se eu avaliasse corretamente a demanda, evitaria o vexame.

 

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog. 

2 Comentarios

  1. Muito muito bom…rsrsrs

  2. Prestenção..rsrsrs

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