Por Miguel Jabour (*) – Imagine uma mulher, na porta de um aeroporto, pedindo dinheiro para rezar para o seu avião não cair. Pense num flanelinha, numa avenida movimentada, chegando com uma lista na mão para pedir uma colaboração para a festa de aniversário da sogra. Suponha um pretenso ceguinho, numa praia, pisando no seu pé, de propósito, porque você não deu atenção ao repente que ele cantava. Eu já presenciei estas e outras formas originais de ganhar dinheiro, mas acho que ninguém é mais criativo do que o camelô. O autentico. Não é aquele que vende coisas roubadas ou produtos vindos de caminhões tombados na estrada. É o ambulante, gente boa, bom de papo. Que tem ponto e licença para trabalhar. O que inventa slogans interessantes para defender um trocado. Aqueles que oferecem brinquedos, que só funcionam na mão deles, óculos, que já vem com grau, e até dentadura seminova.

Conheci um, tão bom, que tornou-se palestrante. Chamava-se Davi, mas mudou o nome para David, para ficar mais imponente. Tinha uma barraca que vendia balas e doces na rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro, e transformou-a em uma loja de departamentos. Ele dividiu a banca em duas seções: diet e o engordiet. Criou o setor de refrigerados, onde colocava os produtos em um isopor com gelo e anunciava no microfone refrigerantes e sucos de mamão, goiaba, uva e laranja.

Foi o inventor do call center e do delivery de rua:  como ele não podia comprar um telefone fixo e não existia celular naquela época, colocou um ajudante para atender os pedidos vindos de 3 orelhões que existiam perto da sua tenda e entregava seus produtos nos escritórios e lojas da redondeza. Adaptou às suas condições o drive thru, pedindo para os consumidores estacionarem rente a calçada para que ele pudesse atendê-los sem que saltassem dos carros.

Pegou a onda de fidelização de fregueses e criou uma campanha em que a cada 10 mosquitos da dengue capturados, vivos ou mortos, valiam um sonho de valsa. Em um certo momento, ao perceber que as vendas tinham caído, David criou uma ação de marketing totalmente diferente. Em parceria com um consultório dentário, passou a oferecer a seus clientes limpeza dental com flúor. O lema era “A banca do David suja, mas depois manda limpar”.

Certa feita, fez uma promoção onde sorteava um final de semana num hotel na montanha (região serrana do Rio) e, para chamar atenção dos clientes, criou o bordão: “ David não é Maomé, mas leva você até a montanha”.

Lá pelo início da década do ano 2.000, assisti uma de suas geniais palestras promovida, vejam só, por um veículo de comunicação e todos os publicitários que ali estiveram ficaram impressionados com a desenvoltura e perspicácia de um mercador que tinha apenas o 7 o. grau de escolaridade. As ações espontâneas de marketing dos camelôs, quando bem elaboradas, são muito eficazes. A criatividade desses profissionais provoca o sorriso, que por sua vez amolece o coração e abre o bolso do cliente.  É a surpresa que desarma o comprador tradicional.

O camelô, além de ser um bom vendedor, é um excelente meteorologista. Não tem garota do tempo da televisão ou Inmet que acerte tanto quanto eles quando vai chover. É só ir a uma estação de metrô e ver se tem algum ambulante vendendo guarda chuva. Se tiver, é batata, vai chover. Outro bom indício, é quando ele desarma rapidamente a barraca: pode correr, que vai descer água.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

4 Comentarios

  1. Silvio Santos foi camelô também quando ainda estava no Rio de Janeiro. E olhe onde ele chegou. Os feirantes também costumam ser simpaticões.

  2. O melhor sinal da inteligência humana é o bom humor, meu amigo Miguel. Seu artigo alegra especialmente nosso começo do sábado!

  3. Todos trapaceiros, psicopatas não perigosos (embora às vezes também o sejam, rs). Eu não sei se sou chato – provavelmente -, mas tenho reservas em relação a essas pessoas…e até em relação ao marketing, que nada mais é que um camelô com CNPJ…

  4. QUEM SABE, SABE.
    GRANDE MIGUEL.
    AQUELE ABRAÇO.

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