Por Miguel Jabour (*) – No começo da vida, quando a maioria das pessoas não tem dinheiro para nada, tem que viver da mesada dos pais e torcer para ter um avô generoso ou um tio perdulário que atravesse uma grana para garantir um trocado extra, e ainda ter um bom desempenho no boletim, caso contrário nem com os caraminguás poderá contar. Tem que esperar um convite de alguma alma caridosa para passar o fim de semana fora ou rezar para chover, pois aí é costume reunir na casa de alguém. Mas nada disso provoca desânimo quando se é jovem. Aproveita-se cada minuto, sempre chegando em cima da hora nos compromissos e sendo último a sair dos lugares. Nesta fase, a vida é uma beleza: você pode comer e beber o que quiser, que não tem problema. A dificuldade é arrumar grana para a pizza ou descolar um troco para tomar umas cervejas com os amigos.

Depois de formado, a coisa melhora um pouco: recebe alguns convites para uma boca livre, escolhe umas promoções da Restaurant Week, imprime tickets de descontos para ir ao cinema e vai tocando a vida. Esta é a fase do exibicionismo: compra-se o que não precisa, com um dinheiro que não tem, para mostrar para quem não gosta.

Quando a vida fica boa mesmo, aí começam a aparecer os problemas: o peso, a glicose, o colesterol e o diabo a quatro. A sonhada viagem para o paraíso ecológico de Machu Picchu não poderá ser feita por causa da pressão alta. O esperado convite para um passeio de iate, com buffet assinado por um chefe estrelado, terá que ser recusado por causa da gota, fruto do ácido úrico alterado. Compra-se um carro conversível, mas não pode abaixar a capota com medo de assalto, e, pelo mesmo motivo, não pode usar o relógio Rolex, que tanto trabalhou para conseguir.

Logo em seguida, chega a hora de curtir aquilo que você mais almejou na vida: a aposentadoria. Nesta etapa, você tem prioridade no supermercado, na farmácia, na vaga do estacionamento, no ônibus, no metrô e no avião. Contudo, tem pessoas que recusam esses privilégios. Eu tenho um amigo que não entra nessas filas especiais por nada neste mundo. Ele acha que nelas tem muita gente chata que gosta de puxar papo furado e a maioria dos frequentadores esquece a senha na hora de pagar a conta. Ele também alega que uns demoram a entender o que o atendente pergunta, pois estão surdos, e ainda diz: se eu for a um show do Phil Collins, não entro na fila preferencial, pois deve ter mais gente nela do que na normal.

Certa feita, assisti uma palestra de uma economista que, à época, tinha 80 anos. A Dra. Ethel, contou a seguinte passagem: foi ao banco aplicar o seu dinheiro e sentou-se em frente a uma gerente que falava ao celular sem parar. Só tratava de assuntos de sua vida particular. Falou com a babá da sua filhinha, marcou cabeleireiro, atendeu o personal trainer e a pobre senhora lá, sentada, esperando uma brecha entre as ligações para tratar do seu assunto. Ela foi embora, mas resolveu dar uma lição na gestora da sua conta. Já do lado de fora da agência, telefonou e identificou-se: fulana, sou a Ethel, aquela senhorinha que estava sentada bem em frente a você enquanto falavas ao telefone. Com certeza, somente nesta hora a gerente se deu conta que aquela cliente havia desistido do atendimento. E continuou: decidi ligar, pois já vi que você só atende as pessoas por telefone, pois bem, eu ia aplicar as minhas economias no seu banco, mas desisti, porque na minha idade qualquer perda de tempo me fará falta no futuro. E pediu para encerrar a conta.

Já pensou se já nascêssemos com grana, vitalidade e experiência? A vida não teria graça.  A minha óbvia conclusão é a seguinte: Deus é justo.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

3 Comentarios

  1. Não vejo a hora de chegar nos 60. 👵😅😅

  2. Se não premia aqui, premia logo depois…na razão direta, mesma, do sofrimento experimentado…

  3. Miguel, um dos melhores sinais da inteligência é, sem dúvida, o bom humor. E, é o que não falta em sua crônica! Você é o carioca típico: inteligente, feliz e que tem prazer em dividir essa alegria com os amigos!

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