Por Miguel Jabour (*) – A Marotinha foi uma corrida infantil realizada por 7 anos consecutivos no dia das crianças, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Logo na primeira edição, em 1992, contou com 5.000 participantes, distribuídos em 5 faixas etárias. As 1.000 crianças de cada categoria foram divididas em 10 baterias com 100 mini corredores e o vencedor de cada uma delas ganhava como prêmio uma bicicleta. Além disso, os 5 meninos e as 5 meninas que tiveram os melhores resultados na classificação geral por idade, recebiam uma cesta básica mensal, durante 1 ano, e treinamento com o técnico de atletismo especializado em jovens chamado Feijão, oferecido pelo empresário Gustavo Andrade, mas com um detalhe: sem qualquer exigência de contrapartida comercial.

Apesar das inscrições terem sido abertas com 15 dias de antecedência, os responsáveis deixaram tudo para o último dia. Como consequência, formaram-se enormes filas causadas pela lentidão dos computadores que não davam conta de processar o elevado número de formulários, além das impressoras que seguidamente travavam na hora de emitir os recibos. Como a maioria dos pais pagava em dinheiro, pedi ao gerente do banco que mandasse uns cofres do tipo boca de lobo, aqueles que somente tem entrada e só podem ser abertos dentro da agência, e, de tempos em tempos, vinha um carro forte para recolher a grana. Esta providência evitou qualquer possibilidade de assalto ou desvio de dinheiro, mas, por outro lado, não houve como conferir os valores.

No dia da corrida estiveram presentes ao estádio mais de 20.000 pessoas entre corredores e espectadores. Os staffs estavam fantasiados de personagens de super-heróis e houve distribuição de lanches com refrigerantes, sanduíches e sorvetes. Para ter ideia do que foi administrar o repentino sucesso, no meio daquele alvoroço, surge, do nada, um sujeito completamente embriagado, que furou o aparato montado pela turma da disciplina e foi parar no meio da pista. O experiente coordenador técnico, prof. Xavier, tentou convencê-lo a sair daquele local, pois ali somente os organizadores e participantes poderiam ter acesso. Não conformado, ele veio em minha direção e foi dizendo: foi o senhor que mandou não falar nada no alto falante? Respondi que sim e ele insistiu: mas eu preciso dar um aviso muito importante. Como ele estava extremamente alterado, perguntei o que ele gostaria de anunciar. Eu perdi a minha sogra, disse ele. Deu vontade de rir, mas o Xavier, que me dava cobertura, interveio, e, didaticamente, como se estivesse falando com uma criança, disse-lhe: então vamos combinar uma coisa: o locutor vai dizer que o senhor está esperando a sua sogra em frente a tribuna de honra do estádio, lá fora. Combinado? Combinado, disse o bebum. Depois de ouvir o nome da sogra anunciado pelo microfone, lá foi ele encontrá-la bem longe dali.

Além da festa, havia uma acirrada competição esportiva entre os meninos mais velhos na faixa dos 12/13 anos. O destaque foi um garoto franzino chamado Marílson Gomes dos Santos, que venceu a sua bateria com impressionante facilidade. Como ele já sabia antecipadamente que ganharia uma bicicleta, pois já era reconhecido como um talento no mundo esportivo, vendeu o prêmio no dia anterior e encheu um carrinho de compras para abastecer a geladeira da sua mãe. Tempos depois tornou-se um atleta olímpico, bicampeão da New York City Marathon e vencedor da Corrida de São Silvestre. Guardo uma foto dele chegando, descalço, na Marotinha e outra vencendo a Maratona de N. Y.

Durante a operação de rescaldo do evento fui chamado à sala do diretor da promotora da corrida. Lá estava ele e um auditor contábil, ambos com as fisionomias bem sérias. Ele foi logo perguntando: como é que você justifica ter mais dinheiro arrecadado do que a quantidade de inscritos? Reconheci que num determinado momento perdi o controle da situação, pois o equipamento tecnológico utilizado não foi suficiente para atender a enorme demanda e que a partir daquele momento orientei os staffs a entregar os kits somente com a identificação do nome e da idade da criança, depositando o dinheiro das inscrições em cofres lacrados que foram mandados diretamente para a agência bancária que empresa tinha conta. Encabulado por ter dado ouvido a desconfiança do fiscal, ele reconheceu a minha habilidade em contornar aquela difícil situação e elogiou a minha honestidade. É complicado conduzir uma iniciativa malsucedida, mas também é difícil administrar o sucesso.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar
Logo Qualitare