Por Miguel Jabour (*) – A demanda veio diretamente da Presidência dos Diários Associados: realizar um grandioso evento para comemorar os 200 anos de fundação do grupo de comunicação no dia 1 de junho de 2008, em Brasília.

O espetáculo chamou-se Tributo a Pavarotti. Foi um concerto musical, à noite, ao ar livre, inédito. O cenário foi a área externa da Torre de TV, um anfiteatro perfeito para uma apresentação de gala. Além da área VIP, destinada aos convidados especiais, foi destinado ao público uma arquibancada construída, em grama, pela própria natureza. A escolha da orquestra e dos cantores ficou a cargo do competente maestro Silvio Barbato, que escalou a Camerata Brasil, o tenor Thiago Arancam, brasileiro radicado na Itália, e a soprano brasiliense Luciana Tavares, para a parte lírica. Para fazer uma mistura de ópera com a música popular brasileira, bem ao estilo dos saraus do homenageado, compuseram o elenco a cantora Fernanda Abreu e o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser. No dia do recital, o ambiente era semelhante ao de um concerto do tenor numa cidade europeia. Dava para ver a plateia ordeiramente sentada naquela relva verdinha, sob coloridas toalhas, bebericando vinhos e champanhes. Contudo o céu estava carregado de nuvens e só a chuva poderia atrapalhar aquele harmonioso quadro. Então, veio a minha memória o show do Frank Sinatra no Maracanã, em janeiro de 1980. Naquela noite, pela ameaça de chuva, não houve passagem de som. Os técnicos não queriam molhar os microfones, nem os violinistas estragar seus Stradivarius. Faltando uma hora para o início do espetáculo, Frank Sinatra avisou que, se não parasse de chover, voltaria para o hotel Rio Palace. Temendo o cancelamento do show, o empresário Roberto Medina pegou o cantor pelo braço e o levou até a boca do túnel de acesso ao campo. Quando Sinatra viu as 175 mil pessoas estavam tomando chuva à sua espera, disse: Vou cantar de qualquer jeito. A sete minutos da hora marcada para começar, o céu abriu e as estrelas apareceram. A maior delas entrou no palco e cantou por mais de 1 hora, inclusive dedicando a música Corcovado ao seu amigo Tom Jobim. Depois de acenar com um lenço branco, despediu-se e logo depois a chuva voltou a cair. Fui ao encontro do Silvio e contei essa história. Falei que estava no Maracanã neste dia e pedi a ele que fizesse igual ao Frank Sinatra. Ele colocou a mão no meu ombro, riu e disse: Miguel, não vai acontecer nada disso. Ele falou com tanta segurança que parecia ter um acordo cósmico. Começou o show com o tenor Arancam e Luciana Tavares cantando Nessun Dorma, da ópera Turandot, de Puccini. Depois foi a vez do guitarrista Kisser executar a música de Villa Lobos, Trenzinho Caipira, e sair aplaudido de pé pelo público. Em seguida, foi a vez da Fernanda Abreu emocionar os presentes cantando a música Jorge da Capadócia, de Jorge Ben Jor, e para finalizar, todos juntos no palco cantaram uma música da Ópera La Traviata de Verdi. O acordo do maestro com os astros foi cumprido, até porque ele já havia morado em Brasília e sabia que nunca chove na cidade no mês de junho.

Tempos depois casualmente encontramos, acompanhados das esposas, no hall do Teatro dos Quatro no Shopping da Gávea no Rio e batemos um animado papo. Lembro que ele contou os seus projetos com muito entusiasmo, pois vibrava com tudo que fazia. Foi ali a nossa despedida. Barbato morreu em 2009, quando estava a caminho de Kiev, no trágico acidente do voo da Air France, onde ia fazer a apresentação da sua ópera chamada Carlos Chagas. Aprendi com ele que função de um maestro é igual a de um gestor: coordenar, dirigir e liderar um grupo heterogêneo e fazer dele um time coeso. O regente de uma orquestra tem que ter na cabeça todas as partituras feitas para os naipes de cordas, madeiras, metais e percussão e orientar, com gestos precisos, aquele grupo de músicos. Aprendi com o genial maestro que esta estressante tarefa pode ser feita com entusiasmo, alegria e leveza, sem a necessidade de demonstração de hierarquia. Na audição, ele trabalhou com várias equipes sem precisar mostrar que ele era o líder e o fez parecendo que todos eram parceiros habituais de longa data. Tempos depois, sem notar que estava copiando o regente, montei um time de trabalho com pessoas de diferentes setores na empresa jornalística que eu atuava. Tinha gente da redação, do comercial, do marketing e do financeiro, todos, tal qual no Tributo a Pavarotti, que nunca tinham desempenhado funções conjuntamente. Lembrei-me do grande maestro e tentei imitar o seu estilo. Lógico que não consegui. Como dizia o personagem criado pelo Chico Anysio, Alberto Roberto: parecido sim, igual nunca. Salve o maestro Silvio Barbato, “O Batuta”.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog. 

2 Comentarios

  1. Sem comentários. Aplausos somente. Muitos aplausos.

  2. Que bela homenagem, querido Miguel. Você promove a aproximação certeira entre inteligência e a sensibilidade para trazer na palma mão essa alma encantadora que era o querido maestro Silvio Barbato! Parabéns!! Viva!!

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar
Logo Qualitare