Por Miguel Jabour (*) – Custei muito para identificar o motivo pelo qual, às vezes, eu sentia uma sensação de bem-estar sem ter uma aparente explicação. O famoso feliz por nada. Encontrei-a quando li um artigo do filósofo francês Marcel Proust que batizou isso de madelaine. Em seu romance – Em busca do tempo perdido – ele descreve este estado de felicidade no momento em que molhava em seu chá nuns bolinhos em formato de conchas, chamados de madeleines. O gosto e o aroma o remetia a boas lembranças, transportando-o a uns especiais momentos. Na música Cheiro de Amor, a cantora e compositora Maria Bethânia retrata bem esse sentimento com o verso “De repente fico rindo à toa sem saber por que”.

Não entendia o motivo de sentir tão bem ao caminhar rente a mureta da Urca, conversando com a minha mulher. Não sabia por que o cheiro de peixe vindo da Baia de Guanabara me dava tanto bem-estar. Tempos depois entendi que, inconscientemente, aquele odor me remetia as pescarias repletas de boas risadas que eu e meu irmão fazíamos com o nosso pai no Iate Clube do Rio de Janeiro, que fica bem perto dali. Também, sem saber explicar, eu percebia mesma sensação de euforia no momento que batia em mim uma bruma vinda da praia enquanto corria na orla do Recreio dos Bandeirantes, no Rio. Eu pensava que era beta-endorfina, um hormônio que o corpo produz durante uma intensa atividade física. Depois de ler o texto do Proust, entendi que isso me remetia aos treinos que eu fazia na praia de Grumari, neste mesmo caminho, onde eu praticava ciclismo para as competições de triatlon. Outra estranha sensação eu notava ao sentir um cheiro de óleo queimado enquanto caminhava pela Marina da Glória, no Rio de Janeiro. Descobri que era a lembrança dos tempos que eu pegava, bem cedo, a barca da Cantareira para participar das corridas da travessia Rio-Niterói. A embarcação é que soltava aquele cheiro.

Não havia me tocado por que o perfume da goiaba me trazia uma agradável sensação de nostalgia. A explicação veio bem depois. É que a minha memória afetiva me remetia às viagens que eu fazia em criança a Igarapava, interior de São Paulo, para a casa dos meus avós paternos. Minha avó, exímia doceira, mandava colher no seu pomar quilos da fruta, descascava-as, cortava-as ao meio, tirava os caroços e colocava-as em um enorme tacho de cobre, sob um fogão à lenha bem rústico. Adicionava vários sacos de açúcar e com uma pá de madeira, que mais parecia um remo, mexia durante horas aquela borbulhante massa de cor vermelha Ferrari. Ao final da tarde, depois de enformadas, aquelas preciosidades eram embrulhadas em papel celofane e depois envolvidas numa embalagem de palha de milho. Ela finalizava o embrulho com um bonito laço e enfileirava os tabletes de goiabada cascão no alpendre da sua casa. Não sei se eu ficava mais impressionado com o aroma do doce ou com o olhar generoso da minha avó dando os pacotes para os vizinhos e amigos.

Sinto até hoje o cheiro dos michuis tricolores (espetinhos árabes de carne) que meu pai fazia para mim em seu apartamento em Copacabana. Ele entremeava tomates, cebolas e pimentões verdes com nacos de filé mignon e os deixava assar lentamente em uma pequena churrasqueira instalada na varanda. Enquanto a iguaria não ficava pronta, ele cantava, acompanhado do violão, as músicas do seu repertório: Malaguenha, Gente Humilde, Isaura, Meu primeiro amor, todas interpretadas com muita emoção. O aroma, o som, a fumaça e a alegria ficavam espalhas não só pela casa, como também pelo prédio inteiro. Aos domingos, ouço estas canções sentido o perfume dos seus churrasquinhos libaneses.

Já a minha mãe, era especialista em fazer quibe de bandeja. Como ela preparava a iguaria bem cedo, eu acordava com o cheiro da mistura de carne, trigo, hortelã, cebola, canela e manteiga que o prato exalava. Toda vez que peço um quibe de forno num restaurante, tenho a certeza de que fragrância me levará as boas recordações do meu passado.

O talento culinário foi distribuído pela família por igual e a minha única tia por parte de pai fazia uma inigualável esfirra de carne. Na sua casa em Ribeirão Preto, São Paulo, onde eu também passava férias, eu sentia, de longe, a essência da massa. Até hoje o meu olfato lembra do recheio feito com a mistura da carne moída, pimenta síria, tomate e cebola. Tenho guardada a receita escrita por ela, com a caligrafia de uma autêntica professora. Toda vez que sinto cheiro de esfirra eu experimento um alegre saudosismo.

A vida é cheia de mistérios e é esse o tempero dela. Nunca pensei que os meus pensamentos remotos fossem tão comuns em outras pessoas, nem tampouco poderiam ser chamadas de madeleines. Aquilo que para mim é memória afetiva, Proust batizou de memória involuntária.

Seja que nome tenha, se quisermos descobrir por que sentimos ou fazemos determinadas coisas, é só buscarmos no passado. Também temos a opção de não mexer com ele, mas a história que os outros contarem é a que ficará.

Então, preferencialmente, que estas lembranças sejam transmitidas por nós, para que os nossos descendentes conheçam as suas origens sob a nossa interpretação.

Há um provérbio chinês que diz: todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira.

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

4 Comentarios

  1. Miguel Jabour, receba um abraço emocionado pela alta sensibilidade de seu artigo. Sensibilidade e sabedoria !

  2. Ativo minha memória afetiva com músicas. É muito bom ouvir uma canção que te transporta pra outro momento da sua vida. A música tem esse poder. Esta semana mesmo lembrei de 2004 ao ouvir ” Vamos Fugir”, na voz do Skank, tema da novela Da Cor do Pecado. ☺☺

  3. Nem afetiva, nem involuntária, memória olfativa, rsrs. Também tenho, o cheiro de café que minha mãe preparava nas manhãs frias de outono/inverno, quando nos acordava pra irmos à escolinha municipal. Do pão quentinho (que, pelo trigo, soube depois, era muito melhor que o atual). Mas não só, tenho memórias dos radinhos de pilha que usava pra ouvir futebol, num tempo em que raramente havia transmissões pela tv (o 1º que tive era de uma marca chamada Evadin, e era envolto em couro). Do forte sotaque caipira de meus parentes, quando passava as férias no interior. Da antiga rodoviária de São Paulo, no centro velho (em frente à Estação Júlio Prestes). E muitas, muitas outras, quase todas da infância…

  4. Estar feliz com os aromas da vida
    Lembranças e felicidade
    Belo texto
    https://youtu.be/VtiFzpuzMfg

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