Por Miguel Jabour (*) – A principal diferença entre refugiados e migrantes está no motivo pelo qual essas pessoas se deslocam de um lugar para o outro. Enquanto os refugiados precisam de ajuda para fugir de guerras ou perseguições em seus países de origem, os migrantes, geralmente, saem por vontade própria, em busca de melhores condições de vida.

Por ser neto de migrantes libaneses, conheço bem o que é ser um estrangeiro no país dos outros. Por outro lado, acompanhei o reconhecimento dos brasileiros por tudo que meus avós fizeram para desenvolver o nosso País. Meus ascendentes mudaram-se para o Brasil na década de 1890, num misto de fuga da guerra com a busca de melhores oportunidades. Os patriarcas maternos dedicaram-se ao plantio e exportação de café na região mineira de Leopoldina, e, mudaram para o Rio de Janeiro onde investiram na bolsa de valores em empresas brasileiras e na construção civil, onde edificaram um bairro inteiro em Bangu: o Bairro Jabour. Já meus avós paternos montaram uma pequena indústria de beneficiamento de arroz no interior de São Paulo, na pequena cidade de Igarapava. Apesar nascerem em cidades muitos próximas, Trípoli e Kafar Hata, só se conheceram no Brasil por ocasião do casamento do meus pais. Meus ancestrais sempre respeitaram as leis brasileiras, desenvolveram-se comercialmente e prosperaram junto com o povo brasileiro, dando empregos e pagando impostos.

O fato é que ninguém gosta de ter o seu território invadido por estranhos. Ninguém fica feliz em perder uma oportunidade profissional para um forasteiro. Ninguém aprecia ter que dividir assistência médica, comida e escola com gringos. Mas, vendo o outro lado, ninguém gosta de deixar sua pátria, seus bens, seus familiares e amigos e começar a vida do zero. Só o faz por extrema necessidade.

As pessoas só se apiedam dos que fogem de seus países quando veem uma foto de criancinha morta nos braços de um soldado, como foi aquela terrível imagem de um menino sírio morto numa praia na Turquia, que virou o símbolo da crise migratória que já matou milhares de pessoas do Oriente Médio e da África.

O desprezo pela vida de quem vive abaixo da linha da miséria é tão grande que em março de 1993, durante a guerra no Sudão, o fotógrafo Kevin Carter viu uma menina esquelética, de mais ou menos cinco anos, agachada, olhando para o chão. Atrás dela, a poucos metros de distância, um abutre a observava esperando para atacá-la. Ele apontou a câmera e registrou a cena. Aquela foto lhe rendeu o Pulitzer Prize, importante prêmio de fotografia.  A criança sobreviveu, mas o fotógrafo, arrependido, no ano seguinte suicidou-se.

Imagine o  que passa pela cabeça de um lorde inglês vendo um sírio entrar clandestinamente em seu País ou um americano ao ver um mexicano pisando em seu solo sem a sua autorização ou até um venezuelano invadindo o Brasil.

Admiro muito as pessoas corajosas e uma delas é Papa Francisco. Acho que ele só tem medo da sua consciência. Quando ele, na volta de uma viagem ao Marrocos, lamentou a atitude dos governantes europeus que esqueceram do passado quando seus cidadãos migraram para a América fugindo da Segunda Guerra Mundial.

Perguntado sobre o que passa por sua cabeça quando sabe de alguém que se nega a acolher os refugiados, o Santo Padre disse que, “pela cabeça nada, não entendo. Pelo coração, muita dor”. O pontífice repetiu nesta entrevista a indireta que deu ao Presidente dos Estados Unidos: em vez de muros, vamos construir pontes para os migrantes e refugiados.

 

* Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog.

 

3 Comentarios

  1. O velho dilema entre acolher o estranho necessitado e rejeitar o diferente. Olha, como cristão, meu desejo é o de acolhimento. Mas devo reconhecer que entendo as razões dos países que se recusam a fazê-lo. É egoístico, o ato de não-acolhimento, mas um país tem que pensar também nos seus nacionais. Um incremento populacional pode ser bom, como nos países com população decrescente, envelhecida; mas, ao mesmo tempo, significa renegar seus hábitos, seus costumes, e aceitar que o seu povo, ancestralmente estabelecido, perderá espaço em seu próprio território para pessoas com hábitos totalmente diferentes e às vezes até conflitantes com os seus costumes. Eventualmente, o estrangeiro se voltará contra ele, nacional, e sua família, reivindicando direitos que não possui em seu próprio país. Minha esposa esteve em Londres, ano passado, e relatou que as mulheres muçulmanas têm seus próprios espaços, até públicos, como lojas, onde rejeitam as ocidentais, que consideram promíscuas (como se elas, que compartilham um homem com várias outras, não vivessem situação ainda mais humilhante, como galinhas cacarejando em torno de um galo). Como aceitar isso? Difícil! Acho que os países ricos têm uma responsabilidade moral: propiciar condições para que os diferentes países possam, tanto quanto possível, se desenvolver e dar condições satisfatórias, minimamente, que seja, aos seus nacionais, para que não haja migrações em massa…

  2. Eu acho fabuloso pessoas que conseguem sair de seus países, chegarem sem eira nem beira num outro, e fincar raízes. Dar a volta por cima e fazer daquele novo lugar seu lar. Desde que não esqueçam suas origens. Mantenham vivas, de alguma forma, suas tradições e costumes e repasse-as aos seus descendentes. É importante! O Brasil é um país de imigrantes. Todos nós temos algum antepassado de outro lugar do mundo e essa miscigenação é fascinante e nos torna culturamente diferenciados e especiais. Eu, pelo menos, tenho muito orgulho disso. Acho incompreensível e inconcebível termos preconceito dentro do nosso próprio país e contra nossos compatriotas. Como o desrespeito especialmente contra nordestinos e nortistas por parte do Sul/Sudeste. Uma realidade inegável. Como se as maiores metrópoles do país não tivessem sido construídas por imigrantes de várias partes do Brasil e do mundo. É horrível ter que ser forçado a sair da sua terra e ir pra um lugar totalmente diferente, como ocorre com os sírios, e eles deveriam ter mais apoio, só que com gente sofrida e necessitada vêm também os malfeitores que acabam provocando caos nos lugares que os acolhem, daí o receio de oferecer ajuda. Infelizmente por conta de um pequeno grupo, todos pagam.

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