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Na Veja SP (Por Paulo Vinicius Coelho) –  O avião tocou o solo do Aeroporto de Guarulhos, vindo de Londres, na manhã de 28 de março de 2013. Paulo Nobre, que havia ido à Inglaterra para acompanhar, a convite da CBF, um amistoso entre a seleção canarinho e a Rússia, nem esperou a autorização pelo sistema de som do avião e ligou o celular em busca de informações sobre o resultado do clube que comandava havia dois meses na rodada do Paulistão. O susto veio na manchete: “Mirassol 6 x 2 Palmeiras”. Ao seu lado na classe executiva, o narrador Milton Leite, do SporTV, deu um tapa em seu ombro direito e deixou a aeronave depois de dizer apenas duas palavras ao recém-empossado presidente do Verdão: “Boa sorte”.
O Palestra estava sem dinheiro até para pagar a conta de luz, disputava a série B do nacional e os bons jogadores, como o goleiro Fernando Prass, representavam exceções no elenco. O calvário continuou em 2014, mesmo com a volta à primeira divisão.
Logo na inauguração do moderníssimo Allianz Parque, em novembro, a equipe perdeu de 2 a 0 para o Sport Recife. Passadas algumas semanas, escapou na última rodada do campeonato de outro vexame histórico, livrando-se de ser rebaixado pela segunda vez em três temporadas do Brasileirão. “Não desejo a ninguém o que passei naquela época”, diz.
Sentado em uma poltrona de couro nas cores verde e branco em sua sala, que fica no 2o andar da Academia de Futebol, na Barra Funda, Nobre, de 48 anos, fala hoje da fase de percalços dolorosos como se estivesse recordando um pesadelo distante. Cumpriu dois mandatos de dois anos à frente do Palmeiras e produziu uma impressionante virada. No domingo (27) o Verdão entrará em campo no estádio da Zona Oeste para jogar uma partida decisiva contra a Chapecoense. Um empate garante o título brasileiro. Em 15 de dezembro, o cartola entregará a presidência, mas continuará por perto, como conselheiro do sucessor, Maurício Galiotte, que é seu amigo pessoal.
No processo de recuperação do Verdão, ele mudou cinco vezes o técnico até acertar, em março, com o paranaense Cuca, um dos grandes responsáveis pela excelente campanha de 2016, ao lado dos craques Dudu e Gabriel Jesus. Nas mudanças estruturais que promoveu dentro do clube, houve um momento-chave: depois do quase rebaixamento em 2014, decidiu trocar o diretor de futebol José Carlos Brunoro por Alexandre Mattos.
Duas vezes campeão pelo Cruzeiro, Mattos tinha um estilo mais agressivo que o do antecessor. Na chegada, alertou o cartola de que o único jeito de vencer seria gastando dinheiro com reforços importantes. Nobre acatou o conselho. Foi como se o Tio Patinhas entregasse o talão de cheques ao Gastão. Uma das primeiras investidas no mercado da bola envolveu a contratação, por 19 milhões de reais, de Dudu, que retornava de uma temporada na Europa e estava quase acertado com o Corinthians.
De uma família de milionários (o avô tinha cartório na capital e investia em terras, caminho seguido por seu filho), o presidente do Verdão, que é formado em direito, assumiu cedo a herança. A mãe morreu em 1985 e o pai, em 2001. Nobre multiplicou o patrimônio que lhe deixaram atuando no mercado financeiro como trader, o nome que se dá ao investidor que vive de comprar e vender ações na Bolsa de Valores.
Usou a própria conta bancária para tirar o Palestra do sufoco de caixa, emprestando ao clube 200 milhões de reais, a partir de 2013. A verba serviu para resolver o problema das dívidas de curto prazo da agremiação, que foram renegociadas para pagamento em doze anos. O clube já quitou 40% do que deve ao presidente (o restante será devolvido ao longo da próxima década). Dinheiro deixou de ser uma grande preocupação dentro do Palmeiras. Em 2016, o time deve arrecadar mais de 430 milhões de reais, quase o dobro do montante registrado há quatro anos.
O presidente cresceu na região da Granja Viana e, aos 9 anos, logo na sua estreia nas arquibancadas, declarou amor eterno ao Verdão. “Quando olhei aquela torcida, meu mundo mudou”, lembra. Já garoto, fez amizade com os dois filhos de Marco Polo Del Nero. O comandante da CBF, atualmente investigado pelo FBI por corrupção na Copa de 2014, exerceu vários cargos no Palmeiras até se tornar membro vitalício do conselho. Na década de 80, Del Nero convidou Nobre para virar sócio do clube. “Precisamos de gente apaixonada. Um dia você também vai ser conselheiro”, disse Del Nero, ao lhe entregar a ficha de inscrição.
Em 1997, a profecia se cumpriu. Até hoje os dois são bem próximos. Logo em seu primeiro dia de mandato, Nobre encontrou o caixa a zero e precisava pagar com urgência uma dívida de 7 milhões de reais. Del Nero, então presidente da Federação Paulista de Futebol, socorreu o amigo. “O doutor Del Nero passou a mão no telefone e ligou para a Globo, que fez um adiantamento de receita de direitos de transmissão”, lembra.
Durante um tempo, ele dividia sua agenda entre o futebol, a Bolsa de Valores e o automobilismo. Pilotou por uma década carros de rally. Era chamado de Palmeirinha e costumava distribuir a todos os corredores camisas da equipe. O hábito continua. No início de novembro, Edmundo, ídolo do Verdão no passado, viajou ao Marrocos para um jogo festivo com outros craques aposentados, como Diego Maradona. Nobre mandou despachar uma caixa com uniformes do clube para entregar a cada um dos participantes. A foto do argentino segurando o presente espalhou-se pelas redes sociais.
O porco, símbolo do time, é uma obsessão do cartola. Ele coleciona miniaturas do bicho (são mais de 1 000), tatuou o suíno na perna, mandou pintar no fundo da piscina de sua casa a figura do animal e tem dois jatos com pintura customizada: o Palmeirinha Fly (Hawker 400A, avaliado em 4 milhões de reais e que está à venda) e o Air Pork One (Falcon 50 EX, cotado em 20 milhões de reais).
O Air Pork costuma ser posto a serviço do Palmeiras. Na última vez em que isso aconteceu, na semana retrasada, o avião foi buscar Gabriel Jesus em Manaus, depois de uma partida da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa. Não fosse assim, o jogador ficaria de fora de uma partida importante do Brasileiro (no caso, o confronto contra o Atlético/MG). O esforço valeu a pena: no empate por 1 a 1, o atacante anotou o gol do Palestra.
Na administração do clube, outra das marcas registradas do cartola foi a sua disposição de não fugir de confrontos. Logo no começo, rompeu com a Mancha Alviverde, a principal organizada do time, depois que alguns vândalos tentaram bater no chileno Valdívia em um aeroporto de Buenos Aires. “Cortamos as regalias deles”, recorda-se Nobre, ao citar o fim das facilidades para a aquisição de ingressos.
Ficaram famosos também seus desentendimentos com a WTorre, responsável pelo Allianz Parque. Durante as partidas de futebol, o Verdão embolsa a bilheteria e a construtora pode explorar serviços como restaurantes e estacionamento, repassando 5% dessa receita ao clube. Uma parte do contrato gerou um litígio entre os parceiros. O Palmeiras entendia que 10 000 cadeiras especiais poderiam ser vendidas pela Torre.
A companhia, por sua vez, achava que tinha direito a comercializar todos os assentos do campo. O caso acabou na comissão de arbitragem da Fundação Getulio Vargas, que deu razão ao Palestra. No auge da disputa, no fim de 2015, Nobre dirigiu-se ao Allianz para fazer uma vistoria no gramado e chegou a ser barrado na portaria. Teve de esperar trinta minutos para que liberassem sua entrada (a WTorre nega a história).
Quando não está no clube, ele gosta de ficar em sua residência, em Cotia, onde mora com a namorada, a química Cristiane, treze anos mais jovem que ele, e cinco cachorros. A sala principal tem um pôster gigante de Evair, ex-craque do Palestra e o maior ídolo do cartola. Parte da área externa é ocupada pela plantação do café “Palmeirinha”. Vai voltar um dia a presidir o clube? “Eu nunca digo nunca”, responde.
A pessoas próximas, diz que seu maior sonho é um dia dirigir o Palmeiras do banco de reservas. Chegou a cogitar a ideia com assessores para a última rodada do Brasileirão, caso a equipe garanta o título neste domingo contra a Chapecoense. Foi desaconselhado. Mas até que o plano fazia sentido. Para o cartola que fez vários golaços nos bastidores nos últimos anos, só faltou mesmo entrar em campo e comandar o time no estádio.

1 Comentário

  1. O que seria do Porqueiras sem Paulo “cofre,” hein? kkkk

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