Por Miguel Jabour (*) – No cassino, trocar as fichas enquanto estiver ganhando pode ser sinônimo de covardia. No mundo financeiro é o famoso realizar o lucro, muito comum entre os investidores da bolsa de valores. Os experientes aplicadores usam esta estratégia para ganharem dinheiro em cima dos gananciosos. Dizem eles: o que cresce na mão é unha.

Lembro de alguns casos de sucesso no quesito parar na hora certa. O mais evidente é o do Rei Pelé. Aposentou-se no auge da carreira.  Foi tri campeão mundial, foi considerado inúmeras vezes o jogador mais talentoso do mundo e ganhou o título mais importante do esporte mundial: o atleta do século. Depois, ainda em muito boa forma, jogou algum tempo no Cosmos, nos E.U.A., e foi divertir-se como ator de cinema em Hollywood, quando ainda poderia dar balãozinho em muito titular da seleção brasileira. Outro bom exemplo é o do Nico Rosberg. Terminou seu ciclo na Fórmula 1 como campeão mundial em 2016, interrompendo o ciclo de vitórias do fora de serie Lewis Hamilton, seu vice, na temporada. Praticou um esporte altamente competitivo e perigoso, sentiu o gostinho da glória, ganhou dinheiro e foi vender sorvetes naturais em Ibiza, na Espanha. Por outro lado, tenho exemplos de pessoas que fecharam muito mal suas exitosas carreiras. Zidane foi um deles. Apesar de ter sido eleito o Bola de Ouro na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, foi expulso na decisão entre a França e a Itália, depois de dar uma cabeçada no zagueiro Materazzi. A escolha foi feita antes da partida final e foi um vexame a cerimônia de entrega do troféu. Foi melancólica a forma com que ele encerrou a carreira como jogador de futebol. Outro exemplo, também dentro do esporte, foi o do argentino Maradona. Considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos, insistiu em não parar na hora certa e foi pego num exame antidoping na Copa de 1994. Discordo dos que dizem que a primeira impressão é a que fica. Para mim, a última imagem do Maradona foi a que ele apareceu em frente a uma câmera, com aparência de drogado.

Conheci, de vista, o dono da Sorveteria das Crianças, o Sr. Moraes. Durante as décadas de 1960 e 1970, seu estabelecimento foi o “point” de Ipanema. Ele era inovador, tanto que a sua casquinha era feita de aipim. Seus produtos eram tão famosos, que muitos diziam ter experimentado o seu picolé de coco queimado, apesar dele declarar que nunca o fez. O tempo passou, o mundo mudou e a sorveteria faliu em 1980. Hoje, no local, existe um bonito prédio da Amsterdam Sauer. Há mais ou menos 4 anos, num domingo, caminhando pelo calçadão da Vieira Souto, em Ipanema,  mostrei a minha mulher o velho Moraes empurrando, com muita dificuldade, uma carrocinha de sorvetes e batendo uma sineta para chamar atenção dos fregueses. Com um uniforme branco, impecavelmente  engomado, oferecia seus picolés com os mesmos sabores de antigamente: abacaxi, maracujá, goiaba, manga, banana frita, jaca e jabuticaba, o preferido do seu ilustre cliente Juscelino kubitschek. Foi decepcionante revê-lo naquele estado decadente.

Outro exemplo, é o do Sr. Aronson. Ele foi o maior varejista no ramo de eletrodomésticos de São Paulo na década de 1960, com a G. Aronson. Com o slogan “O inimigo número 1 dos preços altos”, sua rede cresceu a ponto de empregar mil funcionários e faturar anualmente 250 milhões de reais. Depois de algumas escolhas equivocadas, Aronson acumulou enormes dívidas e ao longo da década de 1990, teve sua falência decretada. Como era um comerciante digno, pagou o que devia a todos seus funcionários e fornecedores. Aos 83 anos, Girsz Aronson decidiu recomeçar e abriu uma loja na Brigadeiro Luís Antônio, no centro de São Paulo. Numa das minhas idas a São Paulo, o vi na porta da G.A. Utilidades para o Lar, solitário, com um olhar triste de quem perdera novamente a batalha. Foi desolador ver aquele quadro.

Não sair de cena na hora certa é comparável a um corredor que passa pela linha de chegada e continua correndo. Para que isto não aconteça, é de fundamental importância ter um conselheiro que não seja bajulador. Um executivo de alto nível deve preservar a sua imagem, e, na hipótese de ser o gestor da sua própria empresa, deve garantir a perenidade dela fazendo uma sucessão planejada. Poderá optar entre ser do Conselho de Administração ou do Grupo Consultivo, opinando em assuntos estratégicos. É sair da operação para atuar como um técnico que utiliza a sua experiência para instruir seus jogadores a acharem caminho mais curto para fazer um gol.

Na minha opinião, a vaidade é sempre o fator que impede uma pessoa de parar na hora certa. O ator Al Pacino, em seu personagem Milton, que encarna o próprio diabo no filme o advogado do diabo, diz: a vaidade é, definitivamente, meu pecado favorito”.

 

  • Miguel Jabour é advogado, publicitário e consultor master da El-Kouba. Ele escreve aos sábados aqui no blog. (artigo publicado originalmente em 18/mai/19)

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